Um dia qualquer.
O bom é que nenhum dia é igual. Ontem, ao entrar pela porta da minha casa, saí de um dia péssimo. Dor de cabeça, números, números, números, engarrafamento, roupa pra lavar, amiga ligando a cada quarto de hora, vida pra levar. Mas o pior foi uma música da Ana Carolina, esquecida no playlist, a tirar meu sono. Pedi com manha, tremendo o queixo, o mundo me obedeceu e parou pra que eu me jogasse no sofá.
A sala escura, um filme ultrapassado na tevê que só me deixei distrair porque a pilha do controle remoto se aposentou por tempo de contribuição. Fechei os olhos e imaginei você de pé, ao lado do sofá, dizendo que não adianta pressionar forte os botões. Um pano no ombro pra limpar as mãos, perguntando com sobrancelhas de reprovação - "esse filme outra vez?"
Fechei meus olhos sorrindo pra não chorar. Gosto de imaginar você. Seu rosto azulado pela luz da tevê, o filme refletindo na lente dos seus óculos de armação elegante, minha melatonina despencando mansinho, um sonho gostoso se confundindo com o perfume de sálvia passeando fora da cozinha. .
Só que agora você deve estar, sei lá, pegando uma outra garota pra levar ao cinema. E tudo bem por mim, sério mesmo. Sei bem que você sabe que a tal não merece mais que uns pacotes de pipoca, restaurante, beijos no carro. Posso imaginar como ela vai dizer "me liga". E você vai responder com seu velho e irritante "aham". Sabendo que não vai ligar. Não porque é um cara ruim, mas pela recorrente sensação de que acabou de largar em casa um quebra-cabeças de três mil peças que, olhando o modelo na caixa, talvez até valha o trabalho de montar. Mas, poxa vida, são três mil peças. E você detesta montar coisas.
Vai ver seus dias têm sido piores que os meus. Dias de miojo, sucrilhos e caixas engorduradas de pizza na mesa pela manhã. Daquela que nem é preciso buscar, é logo entregue na porta. Aquela que, na pressa, nem reparamos as minúcias da embalagem. E você come sem cerimônia ou romantismo, na frente da tevê, sem gosto e quase sem recheio. O que sobra, volta pra caixa, vai pro lixo. Sempre sobra alguma coisa nesses casos. Aí você pensa, se inventaram esse serviço de tele-entrega é porque existe procura, não? Prático. E meio cruel.
Mas sei que no banheiro pensa em mim. Mira seus olhos verdes - imagino eles verdes - no espelho, as bolsinhas abaixo dos olhos, a barba mal feita, a barriga. Escova os dentes, fecha a porta espelhada na esperança de me ver refletida como em produções trash de terror, vestindo uma de suas camisas de flanela xadrez, sem permissão. Tagarelando sobre o dia, sobre amanhã, a viagem pra Argentina no carnaval. E toma uma decisão: chega de tantas pizzas. Podem muito bem matar a fome nos dias ruins, mas não fazem bem pro coração.
Aí decide que vai me encontrar. Fica imaginando onde, como, quando. Num curso rápido? Jantando na casa de um amigo? Num show da Ana Carolina? Não, você passa mal com Ana Carolina. Numa rede social? Ninguém sabe nada ainda, exceto que nenhum dia é igual. Pra nós dois o mundo inteiro é um pequeno guarda-chuva que não conseguimos dividir sem se molhar. Se eu sonho mesmo contigo e essas coisas? Claro que sim. Não é incrível pensar que lá fora existe alguém pra você, que por enquanto é um completo desconhecido?




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